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Avaliação: | Publicado em: 17/09/2007
A relação entre o acidente do vôo 3054 da TAM e a Gestão de Projetos
Alercio Bressano é Gerente de Projetos e Professor Universitário. Possui 8 anos de experiência na área de desenvolvimento de projetos de software, atuando como desenvolvedor, analista e líder de equipe. Atualmente, é líder do PMO (Escritório de Gerenciamento de Projetos) da área de TI de um grupo empresarial, gerenciando o portfólio de projetos dessa companhia. Leciona disciplinas relacionadas à área de Engenharia de Software em curso de Graduação e de Gerência de Projetos em curso de Pós-Graduação. Sobre a sua formação acadêmica, é especialista em Melhoria de Processo de Software pela Universidade Federal de Lavras (UFLA-MG), especialista (MBA Executivo) em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ), graduado em Processamento de Dados pela Universidade Tiradentes (UNIT-SE) e técnico em informática pela CEFET (SE). Tem interesse nas áreas de Qualidade de Software (Modelos e Processos), Gestão de Projetos, Empreendedorismo e Administração.



"Deus escreve certo por linhas tortas". É com essa frase que gostaria de iniciar uma reflexão sobre o trágico acidente aéreo ocorrido há 2 meses atrás. Quando ocorre uma tragédia como essa, resta-nos somente avaliar e tirar lições disso, com o objetivo de evitar ocorrências como essa no futuro. Além disso, analisando os fatos que envolveram os trabalhos de investigação, fez-me concluir que tudo isso poderia ser evitado se fosse dada a devida atenção a um assunto: gerenciamento de projetos.

Vocês devem estar se perguntando: "o que esse evento catástrofico tem a ver com gestão de projetos?" Bem... Estão prontos? Vamos aos fatos (vou estruturar minha análise focando em 3 tópicos que, na minha interpretação, foram falhas de gestão):

1) Entrega de produto inacabado em função de prazo: a reforma na pista principal do aeroporto de Congonhas, onde foi investido R$ 20 milhões (Fonte: JN), foi entregue sem os requisitos definidos previamente em função da pressão por prazo. Um dos itens importantes e que poderia ter evitado o acidente, foi a falta das ranhuras, mais conhecido por grooving. Se a pista tivesse sido liberada com esse item, haveria um atraso na entrega, mas com certeza esse acidente teria sido evitado e, consequentemente, todo o custo material e humano decorrido;
2) Em projetos problemáticos, não encontre culpados! Reavalie o processo: observando a investigação feita pelos deputados na CPI do apagão aéreo, nota-se nitidamente que eles não estão preocupados em efetivamente definir soluções para o problema, mas apenas em mostrar para a sociedade que está sendo feito algo e da pior maneira: somente a busca por culpados. Num projeto, ao se deparar com problemas, reúna a equipe, discuta com os especialistas e critique o PROCESSO, não as PESSOAS! Não procure culpados! Ao identificar as causas, defina as soluções e revise a forma de fazer (processo de trabalho) com os responsáveis por executar aquela atividade;
3) Mudança de pessoas na equipe pode não ser a solução dos problemas: observamos que houve uma mudança no Ministério da Defesa. Será que realmente o ministro anterior era incompetente? Ou existiam problemas de definição de prioridades e alocação de recursos para resolução dos problemas da crise aérea? Sem citar nomes ou partidos políticos (com o único objetivo de aprender sobre gestão de equipes), não necessariamente os resultados demonstram incapacidade da equipe. Fatores como alocação dos recursos certos para os papéis certos, uma correta definição de prioridades e uma boa gestão da trade-off, ou tripla restrição, (tempo, recurso e escopo) são fundamentais para a otimização do uso da capacidade produtiva. No caso específico do ministro Jobim, acredito que a mudança foi necessária. Mas é válido pensar nessa questão e fazer com que a mudança seja uma das últimas medidas a serem tomadas.

Diante disso, podemos concluir que, se tivéssemos um bom profissional de gestão de projetos coordenando a reforma da pista, bem como um gerente competente para liderar o projeto de avaliação e reformulação do controle aéreo no Brasil, com certeza a probabilidade desse acidente não ter ocorrido seria muito maior e muitas vidas teriam sido poupadas. Em projetos de TI, na maioria das vezes, os erros não matam pessoas, mas com certeza atingem diretamente o bolso do acionista, um empreendedor que teve a ousadia e a coragem de trabalhar mais do que 8 horas diárias e formar um empreendimento. Então, nós que trabalhamos em projetos de software, que procuremos não "infartar" os acionistas das organizações que atuamos com falhas de gestão de projetos.

Plugados sempre! Até a próxima...

Alércio Bressano
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http://thespoke.net/blogs/alercio


Paulino Michelazzo <paulino@michelazzo.com.br>
Caro Alércio,
Infelizmente sou obrigado a comentar vários pontos de seu artigo e penso que a analogia entre o acidente e a gestão foi infeliz pois o mesmo não foi um "projeto" e tampouco tinha necessidade de uma "gestão de projetos" sobre si. Vejamos porque:

1) Quando você cita que a pista foi entregue sem grooving e que "com certeza" este acidente teria sido evitado, lembro-lhe que a própria fabricante do equipamento (Airbus) prevê este tipo de falta e permite em seus manuais e procedimentos, o pouso de aeronaves em pistas sem esta especificação. Esta "certeza" não existe nem mesmo para as autoridades relacionadas com o acidente. Pode (e deve) ter contribuído para o mesmo mas ser a mão divina para a salvação das 199 pessoas, não só.

2) O pouso do Airbus e seu consequente choque com o prédio da companhia não foi um projeto, foi um acidente onde existem culpados pelo mesmo, seja o governo pela má estruturação do sistema aeroviário nacional, seja por imperícia do piloto e/ou dos controladores, seja por mau tempo, seja por "n" variantes, mas nunca um projeto problemático. Culpados? Claro que precisam ser descobertos, não em um projeto, mas no acidente, sem dúvida.

3) A questão dos deputados sobre o "processo" foi e está sendo reestruturada (pelo menos em termos) com a alteração da malha aeroviária para a redução de pousos e decolagens do aeroporto, o término do afamado grooving, a limitação do peso das aeronaves e outros pontos mais. Os deputados não podem e não devem re-avaliar o processo pois não é da alçada dos mesmos, mas sim da ANAC, Infraero e seus técnicos. A função deles é a que estão fazendo: investigar se existe vício no processo e procurar onde ou quem estão/são estes vícios.

4) Desconheço quem era o "profissional de gestão de projetos" que coordenava a reforma da pista de Congonhas mas não acredito que ele não seja capaz e tampouco não exista. Penso que não foi levado em conta na analogia a questão "política" que existe em qualquer projeto, seja da construção de uma pequena cisterna ou ainda da migração de todo um legado de TI numa multinacional. A função de um gestor de projetos não é fazer política, mas sim gerir projetos dentro de um ambiente político existente em qualquer área. Se a presidência de uma empresa direcionar o gerente de projetos para determinado caminho, pode ele desagradar alguns,muitos ou todos os acionistas de uma empresa, sem que isso seja caracterizado um problema para o gerente.

Finalmente, a mensagem passada no artigo é boa, exceto, novamente, pela analogia com o acidente e também por colocá-lo simplsmente como um "projeto". O pouso de uma aeronave não é um projeto, é um procedimento já conhecido em todo o mundo e que segue regras testadas em milhões de procedimentos iguais ao redor do mundo, todos os anos.

Saudações.

PS: a CPI do apagão aéreo foi criada por causa da "greve" dos controladores de vôo e o acidente do vôo da Gol e não por causa do acidente (http://www2.camara.gov.br/comissoes/temporarias53/cpi/cpiaereo)
Alércio Bressano
Prezado Paulino,

primeiramente, gostaria de agradecer sua atenção em ter lido e comentado um dos meus artigos. Espero que continue sendo leitor assíduo da nossa coluna.

Gostaria apenas de comentar dois pontos em relação aos seus comentários:
- Um projeto é um empreendimento temporário, que gera um produto ou serviço único e tem data de início e fim determinados. A reforma da pista de Congonhas pode ser considerado um projeto, pois gerou um produto único (pista reformulada), possuiam recursos e orçamento, além de prazo para ser concluída.
- Acredito ter passado essa imagem pelo seu comentário e quero corrigir aqui: não afirmei em momento algum que o pouso de aeronave é um projeto! A reforma da pista e a CPI, na minha interpretação, acredito ser um projeto (pelo conceito acima definido). Mas o pouso e decolagem de aeronave não é um projeto! Mas uma operação rotineira. Meu artigo faz uma relação da gerência de projeto com alguns fatos ocorridos nos dois projetos envolvidos nesse acidente (reforma da pista e CPI - anteriores ao acidente, mas evidenciados no momento posterior a ele).

Espero que isso tenha ficado claro e também esclareço que meu único objetivo foi refletir sobre alguns conceitos aplicáveis à gestão de projetos.

Grande Abraço,
Alércio Bressano
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